Correr com um balão nas costas vai afetar meu desempenho??

Quem me acompanha há algum tempo já sabe que eu me converti rapidamente em um fanático das corridas de rua. Pois bem, hoje quero contar como resolvi competir com balões pendurados nas costas e comentar se isso teria ou não alterado o meu desempenho nas provas.
Em agosto deste ano havia uma prova em São José os Pinhais, região metropolitana de Curitiba, chamada a 'Volta ao Aeroporto'. Como às vezes fotografo competições, antes da prova comentei em um grupo de fotógrafos que seria bacana ter uma foto minha em que aparecesse um avião. Então um colega disse que a maneira mais fácil era pendurar um avião na mochila. E lá fui eu percorrer o centro de São José dos Pinhais, em busca de um balão no formato de avião para pendurar na mochila de hidratação.

Conforme esperado, o aviãozinho causou um efeito estético interessante, que rendeu vários elogios e sorrisos durante a prova. A figura a seguir indica todo o trajeto percorrido, bem como a distância total e o meu ritmo.

Para esta distância de aproximadamente 13,5km, meu ritmo médio foi de 05:59 / km, o que quer dizer que levei em média cerca de 6 minutos para percorrer 1 km. Convertendo ritmo para velocidade, isso equivale a dizer que eu corri a 2,78m/s ou aproximadamente 10 km/h.
Primeira pergunta: Isso é pouco ou é muito? É pouco, bem pouco. Para termos uma ideia, o campeão da prova correu a uma velocidade média de 17,63 km/h.
Um fato curioso: Usain Bolt já percorreu 100 m em 9,58 s, ou seja, correu a 37,6 km/h. Também é verdade que estamos falando de um superatleta em uma modalidade de curta distância que provavelmente não manteria este ritmo na prova do aeroporto.
Quando fui repetir a proeza em Garibaldi (RS), por ocasião da Festa Nacional da Champanhe, na prova chamada '10 milhas borbulhantes' pendurei um balão no formato de uma garrafa da bebida. Causei sensação, o prefeito me cumprimentou pela criatividade e corria bem feliz pelas ruas da cidade, até que um morador gritou: 'O balão vai atrapalhar seu desempenho!'.
Será mesmo? Eu acreditava que, na minha velocidade, um balão não reduziria o meu ritmo, já que não seria significativa a resistência do ar. De qualquer forma, fiquei com a pulga atrás da orelha.
Agora gostaria que os meus colegas pesquisadores me dessem a licença de citar um artigo que foi publicado antes de eu nascer. Sabemos que isso é uma afronta, pois, eu como professor orientador de Trabalhos de Conclusão de Curso, sempre exijo que meus alunos citem textos recentes, mas é o que temos para hoje.
Pugh (1971) comenta que a resistência do ar implica em uma queda de desempenho de aproximadamente 8% para o atleta que, em uma prova típica de 5km a 10km, corre a 6 m/s (21,6 km/h) e de 16% para um fenômeno que consegue percorrer 100m em 10s. O autor também apresenta uma correlação da resistência do ar como sendo uma função quadrática da velocidade e linear de outros parâmetros tais como área frontal e massa específica do ar.
Primeiro, vamos estimar a resistência do ar, no caso de eu não levar nenhum balão de ar comigo, admitindo que eu tivesse a mesma área frontal de um atleta que corre a 21,6 km/h, para o qual a queda de desempenho é de 8%. Neste caso, como eu corri a 10 km/h, minha queda de desempenho devida à resistência do ar seria aproximadamente 1,7%.
Agora vamos analisar a situação em que eu carrego um balão comigo. Ainda que minha área frontal aumentasse em 50%, o que definitivamente não era o caso, a queda de desempenho seria de apenas 2,6%. Ou seja, ridícula.
Moral da história: eu posso continuar correndo com balões. Usain Bolt não!
Referência
PUGH, L.G.C.E. The influence of wind resistance in running and walking and the mechanical efficiency of work against horizontal of vertical forces. J. Physiol. (1971) 213, pp 255-276
Autor: Luizildo Pitol Filho